Sobre o objetivo deste blog.

Os textos a serem postados aqui neste blog se referirão sobremodo ao campo da clínica (da psicoterapia e da técnica) e suas interfaces, tais quais, a arte (literatura e cinema) e o social (política e subjetividade). O objetivo deste blog é servir como um meio de informação acerca da relevância e viabilidade do processo psicoterápico, bem como levar à reflexão acerca da contemporaneidade através do arcabouço teórico psicanalítico.

sábado, 11 de setembro de 2010

Problematização moral e experiência ética na clínica psicanalítica.



Houve em Freud a percepção da dimensão própria em que a ação humana se desenrola, e não se deve ver apenas, na aparência de um ideal de reducionismo mecanista que aparece no Entwurf, a compensação, a contrapartida descoberta freudiana dos fatos da neurose que é, desde o princípio, percebida na dimensão ética em que efetivamente se situa. O que no-lo mostra é que o conflito se encontra aí em primeiro plano e que desde o início o conflito é, vamos dizê-lo, massivamente de ordem moral.

Jacques Lacan, Seminário 7: A ética da psicanálise.

Um dos grandes gestos de Lacan foi o de ter reativado a questão da ética no interior da psicanálise. Dentre as várias motivações subjacentes dessa retomada da ética na prática clínica, do seu papel e de sua função primordial na experiência que se dá numa análise, está indubitavelmente o contexto institucional-político da psicanálise americana. A demasiada atenção e preponderância nos aspectos técnicos da obra de Freud, cujas reverberações estavam também numa certa leitura metapsicológica reduzida aos mecanismos de defesa e a função mediadora do ego entre o superego e o id, faziam com que a psicanálise finalmente se amansasse depois dos anos de turbulências. Era como se finalmente a psicanálise se visse reduzida a uma psicologia, ou uma abordagem psicológica dentre outras. É muito compreensível que, tal qual um peixe fora do aquário se desespera diante da morte iminente, a psicanálise colocada no mesmo tabuleiro de outras psicologicas – cujas peças em jogo são a sanidade mental, a saúde para o trabalho, o tornar as pessoas melhores, mais felizes e mais úteis, dentre outros movimentos dentro desse mesmo escopo geral de “melhoramento” ou “maior adaptação”, ou, ainda, “auto-realização” – não sobrevive, uma vez que perde seu conteúdo crítico, sua proposta singular de cuidado.

É comum que nas universidades atualmente, meio estranho à psicanálise, vale lembrar, outras abordagens psicoterapêuticas soem mais eficazes, mais rápidas, mais práticas e de resolução imediata. O artifício retórico usado é simples: ao criticar o outro, convém estabelecermos nós mesmos nossos critérios e acusar o outro de não se adequar a eles. Assim como seria desonestidade intelectual um psicanalista dizer a um humanista de matriz maslowiana que o maior defeito de sua abordagem não é considerar a dimensão inconsciente do psiquismo (propriedade singular à própria psicoterapia de base psicanalítica), também o é um terapeuta cognitivo-comportamental acusar a psicanálise de ultrapassada, lenta e pouco diretiva. A questão que esse tipo de interpelação esconde propositalmente é: de onde se está retirando a autoridade suficiente para questionar uma outra abordagem com tamanha propriedade? No fim das contas, para variar, o que se tem não é uma superioridade epistemológica mas sim um conjunto de forças institucionais e políticas. Estas sim responsáveis, em última instância, pelo maior vigor de algumas abordagens e menor de outras.

Não é preciso dizer que algo se perde no bojo desse processo. No fim das contas, o critério decisivo é a maior adaptação às exigências mercadológicas contemporâneas. Nos planos de saúde, ou mesmo nas iniciativas particulares dos pacientes, há um certo afã pela solução rápida e eficaz. Certas abordagens inclusive se inscrevem nesse movimento e se montaram de tal modo que essas exigências fazem parte de seu escopo técnico e teórico. Nos últimos trinta anos, a psicanálise não se colocou alheia a esse movimento de aceleração da psicoterapia, vide como exemplos as articulações da chamada psicoterapia breve. Contudo, não preciso esconder que a psicanálise é, no mínimo, reticente a esta atual moda da instantaneidade do cuidado consigo mesmo. O problema não é que a psicanálise seja essencialmente demorada (pegue-se como exemplo os casos do próprio Freud), mas sim que ela suspeita de toda codificação temporal a partir da cronologia. Uma das pressuposições básicas de Freud, de que o inconsciente é atemporal, introduz na experiência analítica o advento de um outro tempo, não cronológico. Isso tem sido falsamente entendido como uma recusa da psicanálise em acelerar o seu processo de análise. O que está em jogo é a proposta de uma clínica ancorada numa experiência moral e numa problematização ética. Clínica esta que, como se pode ver, não pode fazer do tempo cronológico um critério do tratamento. O que não significa, bem entendido, a exigência de que uma análise dure anos. Significa somente que há uma recusa subjacente à proposta psicanalítica de se tomar o tempo cronológico como critério para alguma intervenção na psicoterapia. Ou seja, para resumir esse ponto, não é que um psicanalista se oponha a acelerar uma análise, é simplesmente que ele não pode fazê-lo, não é algo que está sob seu domínio, nem técnico nem ético.

A técnica em psicanálise, a meu ver, está muito mais próxima da discussão grega entre tékhne e poiesis, muito longe, portanto, dessa discussão de uma tecnologia psicológica a ser ensinada padronizadamente e a ser aplicada como se a clínica fosse um laboratório. Em certa medida, a técnica psicanalítica é uma poíesis e não uma tékhne. Vejamos o motivo: a tékhne, cuja essência é a hegemônica no domínio daquilo que se entende por 'técnica', pressupõe um ofício, uma habilidade para fabricar, construir ou compor alguma coisa. A tékhne é como uma profissão, por exemplo, o arquiteto que faz a casa se utiliza da tékhne. Sempre que está em jogo a reprodução prática de um saber adquirido em construtos que podem ser fielmente repetidos estamos falando de uma tékhne. Em certa medida, os cursos de psicologia formam técnicos da dimensão psicológica dos sujeitos, no sentido de que a formação acadêmica hoje hegemônica privilegia a tékhne. Com algumas abordagens que entendem com maior importância a questão dos testes psicológicos e de princípios ordenadores da prática clínica, essa tékhne basta e é imprescindível. Porém, será que um aluno já está gabaritado a exercer psicanálise somente porque aprendeu o conjunto da tékhne psicanalítica? Por exemplo, estaria determinado aluno fazendo psicanálise quando sabe todos os conceitos técnicos fundamentais (tais quais a associação-livre, a interpretação, a atenção flutuante etc.) e os aplica sistematicamente ao âmbito clínico?

Para muitos não. Esses muitos colocam como condição de possibilidade para o ofício de psicanalista a questão de passar por uma análise didática ou pessoal. Só após experienciar na própria carne a travessia complexa da experiência clínica psicanalítica alguém poderia se considerar credenciado a exercer psicanálise. Eu não gostaria de entrar exatamente nessa discussão, mas me parece que essa obrigatoriedade da análise pessoal, como um dos tripés fundamentais do psicanalista, junto com a formação e a supervisão, também privilegia uma certa noção da psicanálise como tékhne. Ou seja, pressupõe-se que um certo caminhar garante alguma coisa, quer dizer, que todo aquele que passa pela clínica está de fato fazendo análise pessoal, que todo aquele aluno que se propõe a estar defronte um analista está, de fato, experienciando alguma coisa que o tornará enfim psicanalista. Será possível garantir mesmo isso? Se não é, por que se enfatizar com tanta veemência a análise pessoal como condição de possibilidade do exercício de psicanalisar? Ora, assim como não podemos de antemão dizer que um sujeito, pelo simples fatos de estar diante de nós, passará inevitavelmente pela experiência psicanalítica e, após algum tempo, estará enfim “curado” ou “modificado subjetivamente”, também não podemos concluir que um aluno passará de certeza pela experiência psicanalítica pelo simples fato de se submeter obrigatoriamente, como pré-requisito de sua formação, a uma análise. O que me parece fundamental é defender que não há psicanalista se não houver experiência clínica, independentemente da posição de paciente ou de analista, uma vez que não há divisão sólida na modalidade experiencial que se constrói numa análise. Em toda análise psicanalítica não é só o paciente que se modifica, mas também o próprio analista. É essa abertura sem precedentes, esse espaço líquido do inconsciente que transborda e necessariamente molha todo o enquadre, que me parece fundamental para uma práxis psicanalítica e a qual, segundo me parece, essa obrigatoriedade de passar como paciente obstaculiza, enfatizando o caráter puramente técnico (tékhne) da psicanálise. E esse modo específico de experiência é possível porque a psicanálise não é somente uma tékhne mas antes de tudo uma poíesis.

A poíesis, assim como a tékhne, implica a fabricação de algo. Porém há uma diferença substancial: para a poíesis a implicação é de criar algo novo, é o domínio de como realizar algo que ainda não foi feito, enquanto que para a tékhne a questão é sempre de reproduzir algo que já se sabe. A distinção, portanto, e mais fundamental para essa discussão que estou querendo propor, é que a poíesis é sempre uma prática, nunca é algo adquirido definitivamente (nem mesmo uma experiência na própria carne pode ensinar a um sujeito como criar algo novo), enquanto que a tékhne é sempre algo adquirido como instrumento possibilitador da repetição de um artefato tecnicamente aprendido. Se é a técnica, o saber como fazer em variadas situações um determinado resultado esperado, o pilar essencial da tékhne, qual seria o da poíesis? Minha proposta aqui é que o pilar fundamental da experiência psicanalítica é a problematização ética.

Esse deslocamento da técnica psicanalítica, através da proposição de que a psicanálise é mais uma poíesis que uma tékhne, contribui para resgatar uma dimensão propriamente moral da psicanálise e de como sua função é problematizá-la através da ética. Vou pegar como exemplo a histeria. Uma modificação básica realizada por Freud com relação à psicopatologia vigente foi a de procurar fundar as neuroses não pela semiologia, isto é, por seus sinais e sintomas, mas sim pela etiologia metapsicológica, ou seja, pelo funcionamento psíquico. Assim, por exemplo, segundo uma leitura psicanalítica recorrente e hoje em pleno vigor, a neurose não se define pela paralisia dos membros, mas pela conversão, que é o mecanismo que a produz, a sua condição de possibilidade enquanto sintoma. Assim, o sintoma não é mais do que a manifestação de um conflito inconsciente. A atenção deve voltar-se, portanto, não tanto para a espetacularidade dos sintomas histéricos, mas para o seu silencioso dispositivo psíquico. Trata-se, de fato, de um deslocamento fundante da psicanálise enquanto método de investigação do psiquismo humano.

No entanto, há algo mais em jogo. A histeria sempre envolveu, em Freud, a questão da sexualidade e do recalque, quer dizer, das aspirações e desejos que são contrários à moral. A textura dos desejos inconscientes e das instâncias recalcadoras é a experiência moral. O recalque surge como garantidor da ação moral, ainda que o sujeito, não podendo agir moralmente, paralise-se. O que vale, numa situação de paralisia, é que a moral se fez presente até mesmo sob a integridade do sujeito. O mesmo podemos dizer na questão da neurose obsessiva, onde existe os problemas da culpa, da ambivalência amor/ódio, todos problemas essencialmente morais. Não é por outro motivo que a ideia de um supereu sádico, mais próximo de um carrasco que tortura o sujeito sem ele saber o motivo do que de um juiz ou censor que lhe dita ordens justificadas e superiores, aparece em Freud como uma problematização daquilo que se mostra como progressista cujo objetivo é levar o sujeito a um alto padrão de sociabilidade. No Mal-estar da civilização, uma das obras mais críticas de Freud onde civilização e aperfeiçoamento humano estão dissociados, essa ordem superêuica não passa de uma ordem obscena, cujo objetivo é açoitar o psiquismo do sujeito.

Parece-me ser essa experiência moral que compele o sujeito a entrar em análise. Entendamos moral aqui em seu sentido foucaultiano, vide sua introdução geral de Uso dos prazeres (segundo volume da História da Sexualidade), isto é, como um código, como comportamento real dos indivíduos em sua relação com as regras e valores que lhe são propostos. A moral designa a maneira pela qual os sujeitos se submetem mais ou menos completamente a um princípio de conduta, pela qual obedecem ou resistem a uma interdição ou prescrição. A moral é sempre uma referência a um sistema prescritivo. O sofrimento psíquico surge quando há uma dissonância entre essa prescrição e a conduta do sujeito. A culpa, por exemplo, pode surgir pelo não atendimento de uma ordem superêuica: deves amar o seu namorado e não o vizinho gostoso, deves ser médico e não um artista. Há, em jogo, uma prescrição e uma conduta que teima em não estar de acordo. E, ainda que a conduta esteja de acordo, que se seja médico em vez de artista, o sofrimento zumbe de dentro, tal qual uma roupa pequena demais que está sempre a incomodar porque não se consegue, apesar das tentativas em vão, perder peso suficiente. A questão que impele o sujeito à análise pode ser descrita, em muitos casos, como: “o que eu faço comigo mesmo na medida em que não consigo seguir o código prescritivo que sei que devo seguir?”. A entrada do sujeito na análise, corporal e psiquicamente, dá-se através dessa primeira experimentação moral: “como devo me consttiuir sem me referenciar no código moral inquestionável que tentei me submeter durante estes anos? Como me constituir como sujeito moral se essa moral me parece impossível?”.

É essa procura por uma nova construção de si mesmo, por uma prática de si, que o paciente parece buscar quando enfim se predispõe a experienciar a análise. Parece-me que certos conceitos foucaultianos como “substância ética” e “modos de sujeição” estão claramente em jogo numa análise e forçam a psicanálise a não ser mais uma técnica (tékhne) psicológica dentre outras. A afirmação da clínica psicanalítica como uma experiência moral que se dá a partir de uma problematização ética requer a recusa de que a análise assuma a forma de indução de pessoas a aceitarem princípios ou regras independentemente de sua experiência delas mesmas. Poratnto, a meta da psicanálise não é transformar sujeitos em cidadãos mais virtuosos ou em trabalhadores mais produtivos. Não se trata, em psicanálise, de garantir que atos individuais contribuam para o bem de todos ou de determinação principiológica dos quais não se pode prescindir.

A ética da psicanálise é uma ética sem Bem. Ou seja, uma ética contingente, onde a felicidade não advém de um padrão ordenador da técnica (tékhne), mas de uma mobilização na produção de algo que ali ainda não adveio. Não há um modelo para a análise que atuasse como uma espécie de manual ou guia infalível. Em certa medida, todas as intervenções são mais éticas (poiéticas) e não necessariamente técnicas.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Teria a clínica algo a ver com a cultura?

Ou, em outras palavras, em que medida e intensidade a cultura atravessa a clínica? Na direção inversa, como a clínica atravessa a cultura? Sim, apesar de parecer menor do que a cultura, a clínica influencia sobremodo a contemporaneidade. Prova disso? Veja-se, por exemplo, a popularização dos conceitos freudianos clássicos, tais quais o de recalque, trauma, complexo, ou mesmo a idéia de que acontecimentos infantis determinam de alguma maneira a subjetividade de alguém. Idéias que hoje são muito comuns, mas tiveram seu ponto de partida com a psicanálise, a qual, por sua vez, iniciou-se com pouco mais de doze pessoas reunindo-se semanalmente.

Como demonstrou Ian Parker em seu estudo sobre o discurso psicanalítico na sociedade ocidental, a psicanálise influenciou o contexto histórico e as subjetividades no século XX. É como se a psicanálise tivesse se coagulado como uma tessitura na qual os sujeitos com seus sofrimentos se inscrevessem a todo o momento, como neuróticos, psicóticos, perversos, bipolares, borderlines, compulsivos, obsessivos, histéricos, fóbicos, fetichistas etc. A psicanálise forneceu um vocabulário específico dentro de um corpo teórico consistente e eficiente acerca da experiência de si. A psicanálise deu, também, ao nosso tempo um regime de verdade, uma série de práticas discursivas que disponibiliza para os sujeitos uma colagem explicativa e definitiva sobre si mesmo e suas relações com o outro, com o mundo exterior. A partir daí, explicações mecanicistas ganham força: “faço isso porque sou obsessivo”. Na medida em que um conceito já não funciona como dispositivo de transformação, ele já não serve mais para nada. É por isso que começar a na direção clínica para a cultura é mais apropriado, pois nos conduz à questão: a psicanálise ainda serve para alguma coisa após ter sido tão massificada?

Apesar das fortes evidências, vale frisar que a clínica se move sob o eixo da cultura e não o inverso. Isso significa dizer que são as mudanças culturais que determinam as intervenções e conceitos clínicos. É por isso que a psicanálise é aberta, uma vez que necessariamente está em constante mutação para acompanhar as modificações culturais. Porém, o que é cultura, o que é clínica e como ambas se relacionam? 

A cultura é um conceito amplo e plurívoco. Arbitrariamente, vou circunscrevê-lo ao âmbito do sujeito, ou seja, as relações que a cultura tem com o sujeito e procurarei a partir daí defini-la. Portanto: qual tipo de relação se estabelece entre sujeito e cultura? 

Há uma visão pré-marxista e pré-freudiana acerca da relação entre indivíduo e sociedade. Ela se constitui por colocar na conta do primeiro um substrato maligno radical que faz com que o homem seja movido por interesses incontroláveis, egocêntricos e destrutivos, que o impelem a agir automaticamente, suspendendo o exercício racional. Na conta da segunda, é colocada uma espécie de gestão desse anseio natural anti-social que tem como ganho direto a convivência social harmônica, estável. A problemática entre indivíduo e sociedade se torna uma questão de embate entre natureza primitiva incontrolável perigosa e formação social que visa transformá-la em modelo societal duradouro. Assim, são postos de um lado o instinto e de outro a lei. As relações entre indivíduo e sociedade vêem-se então reduzidas a um antagonismo inconciliável que tem como desfecho o necessário controle repressor da segunda para com o primeiro. Trata-se, portanto, de uma defesa definitiva que eterniza a repressão do indivíduo como condição fundante da sociedade. Os elementos em jogo nessa problemática são: o indivíduo como portador do desejo enquanto substrato anti-social e perigoso, do qual a sociedade precisa se proteger, e a dominação como aparato de defesa social obrigatório, necessário e trans-histórico, que garante o funcionamento e ordenamento das relações sociais para além do estado de natureza primário.

Os motivos pelos quais considero essa visão dicotômica pré-marxista e pré-freudiana deixarei para um momento posterior. Esse passeio conceitual nos servirá porque embora seja uma visão simplista e não dialética, contém algo de verdadeiro: a cultura é responsável pelas interdições e o sujeito tem de lidar com elas de alguma forma. Isso equivale a dizer, em linguagem freudiana à moda da tradução padrão, que a civilização é construída sobre uma renúncia pulsional (cf. Mal-estar na civilização). Proponho, no entanto, a seguinte conceituação: à cultura cabe a regulação pulsional dos sujeitos em prol de uma organização societal estável e duradoura. 

Se a cultura é responsável pela regulação pulsional dos vínculos sociais, saímos da idéia dicotômica entre indivíduo e sociedade, uma vez que essa regulação pode se dar sob o registro da repressão, mas também sobre o registro do estímulo, e outros registros ainda não pensados/pensáveis. Durante a primeira metade do século XX, de consolidação institucional e conceitual da psicanálise, na sociedade européia estava em marcha o dispositivo disciplinar cujo objetivo era moldar subjetividades para o trabalho e o capitalismo. Uma sociedade regida pela rigidez das instituições, como a escola, o hospital, o quartel, a prisão, casamento, família. Havia, muito mais do que hoje, uma ortopedia moral rigorosa imposta aos sujeitos. 

Uma cultura, sem dúvida, muito próxima de uma repressão. Assim, o sofrimento dos sujeitos estava condizente com essa cultura: neurose como modelo hegemônico. A saber, a neurose tem como pilar a noção de culpa produtora de uma angústia a ser sistematizada de alguma maneira específica. Esse sofrimento angustiante se converteu no corpo (como nas histéricas, cujas paralisias não tinham nenhum substrato orgânico, desafiando o saber médico), deslocou-se para o pensamento (nas obsessões clássicas de repetições de rituais absurdos como repetir uma mesma frase sete vezes para que algo não aconteça), objetificou-se na realidade (como no caso da fobia em que há a presença de um pânico defronte um objeto fóbico aparentemente inofensivo ou cujo medo que pode despertar não é tão grande). 

É claro que essa divisão das modalidades da neurose é por demais esquemática, porém serve para o objetivo que tenho aqui, a saber, de mostrar como um tipo de cultura produziu sofrimentos específicos que, por sua vez, fez a clínica construir conceitos para dar conta desse sofrimento contextualizado. Assim, o sujeito sofrente que surge na clínica está atravessado por uma determinada cultura. São as exigências que a cultura lhe impõe que o fazem presente na psicoterapia. 

Nessa linha, talvez a neurose tenha aberto espaço para outras modalidades de sofrimento. Há autores, como Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun, que apostam na primazia hoje do modelo perverso. Em outras palavras, como a sociedade passou de um modelo repressor para um modelo permissivo, a gestão libidinal passou a ser do gozo consumista. Assim, o sofrimento pode advir, muitas vezes, não de um arrependimento ou de algo não feito, mas sim de uma incapacidade de gozar, de seguir os mandamentos sociais imperativos. Uma mudança no eixo da cultura, passando de uma ordem social e simbólica pautada na interdição para uma ordem onde o que é proibido é proibir, ocasiona mudanças fundamentais na ordem do aparelho psíquico. 

É neste sentido que, terminando essa reflexão de uma forma sumária, posso afirmar que a clínica tem tudo a ver com a cultura. E vice-versa. De modo que uma clínica que não estiver orientada por uma reflexão cultural corre o sério risco de ser estéril.

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Por Leomir C. Hilário.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Todos precisam de psicoterapia?

Essa frase acabou virando um senso-comum e, como tudo o que cai na boca do povo, tem lá sua verdade e eficácia. Porém, é mais do que imprudente que os psicólogos encampem essa generalização. Se o compromisso ético do psicólogo é com uma modalidade específica de cuidado, endossar uma espécie de psicologização pode ser contraproducente, embora financeiramente rentável. Existem algumas condições de possibilidade para o surgimento, consolidação e efetivação de uma psicoterapia. Condições estas que garantem, de algum modo, aquilo que a psicoterapia se propõe a fazer. A minha intenção nesse curto texto é tentar dar conta do que leva a essa idéia de que todos nós precisamos de psicoterapia e quais são as precauções éticas, quer dizer, que tipo de posicionamento ético é viável diante dessa demanda social. É ilustrativo a esse respeito tomar conhecimento do fato de que o Rivotril foi o segundo medicamento mais vendido no Brasil em 2008, perdendo apenas para o Microvlar (um anticoncepcional). Antes mesmo de falar qual é a função do Rivotril, convém ainda deixar mais claro o dado: ele vendeu mais do que Tylenol (aquele remedinho que, com certeza, você já viu alguém tomando ou pedindo para tomar). Não deixa de ser surpreendente o fato de um remédio controlado, tarja preta, com venda controlada e necessária receita médica, tenha sido tão vendido e até hoje muito procurado. Isso levanta uma discussão bastante próxima da que estou querendo propor aqui: será que, realmente, tantas pessoas precisam fazer uso desse medicamento?

Vamos dar nomes aos bois. Rivotril é um ansiolítico, ou seja, age contra a ansiedade, controlando-a. É também usado como relaxante muscular, podendo ser ativado no caso de uma insônia, por exemplo. Existe um tipo de “efeito bem-estar”, por isso há até quem o use devido a um fim de relacionamento. Acontece uma extrapolação médica na medida em que remédios são usados para intervir em questões de ordem cotidianas, em certa medida até naturais/esperados no curso de uma vida saudável e minimamente estável. 

O que há, hoje em dia, é um certo império da felicidade com suas drogas da alegria. É como se houvesse uma onda que quisesse extirpar da vida tudo aquilo que seja supostamente negativo, como a dor, o sofrimento, a imperfeição etc. Em minha opinião, a psicologia não deve participar dessa onda. Afinal de contas, assim como não só existem rosas em nossa vida, mas também duros espinhos (como a perda de um ente querido, o final de uma relação, uma tristeza repentina), a psicoterapia também é um percurso humano, o qual não deve haver nem uma necessidade imperiosa e genérica, tampouco se colocar como um privilégio ou um luxo. 

É certo que a psicoterapia é saudável e salutar para um bom número de pessoas, assim como o Rivotril, se usado corretamente e com maior precisão terapêutica, também pode ser muito bem indicado. No entanto, ambos são provisórios, momentâneos. A diferença radical entre ambos é que a psicoterapia trata de uma travessia singular de cada um, cuja construção dinâmica é um campo aberto de possibilidades de autoconhecimento. É nesse sentido que podemos dizer que a psicoterapia é indicada para toda e qualquer pessoa, mas não usando o verbo “precisar” pois ele supõe uma necessidade. A psicoterapia se coloca hoje como um espaço viável num mundo de fugas. Ela pode, e em alguns casos deve, provocar um bem-estar relativo e constante. Já o Rivotril não, trata-se de uma generalização absurda e abusiva.

Enquanto o Rivotril pressupõe uma espécie de autocontrole, a psicoterapia produz um autoconhecimento. O verbo “precisar” até combina com autocontrole, mas não com autoconhecimento. Portanto, a frase poderia ser melhor formulada do seguinte modo: “a psicoterapia é uma experiência viável e salutar para todos”. Apesar de parecer sutil, essa mudança terminológica pode ser um bom instrumento para que não caiamos na idéia psiquiatrizante de que “todos precisam de Rivotril”, desde aquele trabalhador cujo sono está perturbado pela iminência da demissão até aquela jovem garota cuja crença é a de que entrou em depressão por ter terminado com seu príncipe encantado, passando pelo idoso.
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Isto posto, de minha parte, prefiro me contentar em afirmar a psicoterapia como um processo viável para toda e qualquer pessoa. Não nego que ela seja, em alguns casos, necessária, imprescindível. O que quis pontuar até aqui foi somente de que os psicoterapeutas não podem entrar nesse frenesi generalista. 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Notas sobre o que é e o que não é psicoterapia.


O Terapeuta - René Magritte.
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O que não é psicologia clínica (ou psicoterapia)

 Pode-se dizer que uma troca de informações, ainda que significativa e produtiva, sendo ocasional ou esporádica não constitui uma experiência psicológica clínica. Se esta troca de informações apenas reforça ou distorce modelos de funcionamentos mentais preexistentes que resulta numa persistência ou acréscimo de sofrimento (ansiedade e sintomas) permanentes, também não se pode falar em psicologia clínica. Ainda quando essa troca de informações, mesmo que duradoura, não propocia nenhuma transformação em seus participantes, não se trata de uma psicologia clínica, de uma psicoterapia. 

 Diante destes critérios (falta de periodicidade, perpetuação e agudização do sofrimento e inexistência da transformação subjetiva), decorre-se uma série de encaminhamentos sobre o que não é psicologia clínica. A exemplo, a farmacologia se situa numa intervenção que busca uma mudança no funcionamento fisiológico do indivíduo, através de medicamentos cujos mecanismos de ação interferem nos receptores, transmissores, bloqueadores, inibidores químicos etc. O que conta na farmacologia é o substrato orgânico e, assim, uma visão da intervenção que tem como modelo um conjunto pré-dado de medicamentos e suas ações. Já na psicologia clínica, o que está em jogo não é essa generalização, mas a presença da singularidade de um sujeito específico, sua história de vida particular. Assim, uma atuação medicamentosa pode acontecer (e em certos casos deve) em paralelo à atuação psicoterápica, mas elas não se confudem. 

 Ainda que a acentuação do sofrimento não seja uma marca da experiência psicológica clínica, não se pode dizer que toda e qualquer intervenção que visa amansar o sofrimento é automaticamente psicologia clínica. A intervenção de um padre tem como objetivo aliviar o sofrimento propondo uma penitência tarifária específica como forma de prestação de contas diante da justiça divina, uma massoterapia objetiva reduzir a tensão através de uma incidência no corpo individual, uma cartomante alivia a ansiedade através de uma previsão do futuro e decifração do presente, um grande amigo fornece o ombro para o choro e as lamentações provocando sensação de conforto e alívio após um desabafo. Todas essas ações, apesar de diminuírem momentaneamente o sofrimento, não fazem parte, de modo algum, de uma psicoterapia.  

 Essas precisões terminológicas e técnicas podem ter um efeito contrário, ou seja, pôr o psicólogo clínico num lugar místico, como um tipo de profissional que faz diferente de todo mundo. Essa é uma verdade mentirosa. De fato, o psicólogo clínico possui um arsenal metodológico singular e isso certifica a afirmação de que um psicólogo faz diferente de todos os outros que dizem lidar com o sofrimento subjetivo. Por outro lado, não é verdade que o psicólogo é um mago, alguém que, num passe de mágica, num truque, pode desvendar a verdade de cada um, o diagnóstico imutável pertencente a mais profunda camada do ser.

 O psicoterapeuta não é nem atua como um padre, um médico, um farmacólogo, um grande amigo, uma habilidosa cartomante. Então, o que é psicologia clínica? No que consiste essa prática?

O que é psicologia clínica (ou psicoterapia)

 Partindo-se da negativa anteriormente exposta, depreendem-se alguns primeiros passos do que é psicologia clínica: um encontro periódico, reorganização do sofrimento psíquico que via de regra resulta na diminuição de sintomas e conseqüente transformação subjetiva/mudança de posicionamento. 

 O que há de comum da psicologia clínica com as outras práticas supracitadas (padre, cartomante, amigo etc.) é que ela atua na forma de uma relação entre dois sujeitos (ou mais, no caso da psicoterapia de grupo). No entanto, essa relação é ancorada numa técnica e num método sistemático proveniente da abordagem específica escolhida. Essa característica da psicologia clínica não a coloca necessariamente ao lado das doutrinas positivistas inseridas na farmacologia e psiquiatria. O método da psicologia clínica não é algo duro e/ou estático, mas um método que cria condições para uma experiência que se dá no interior de um setting terapêutico. 

Todo terapeuta trabalha com um referencial teórico que é o suporte para sua intervenção na situação psicoterápica . Esse suporte contém uma visão de mundo, de homem, de sofrimento, de cura, de intervenção. Não obstante a diversidade do campo psicológico que resulta numa pluralidade de abordagens (behaviorismo, psicanálise, humanismo, psicodrama, dentre outras), o fio condutor que une e demarca esse campo de dispersão própria da psicologia é o trato com a dimensão da subjetividade a partir de uma corrente psicológica.

 Resumidamente, a psicologia clínica é uma prática alicerçada numa teoria que fundamenta a intervenção; um tratamento que tem um período que resulta no alívio do sofrimento através de uma mudança subjetiva. 


domingo, 25 de julho de 2010

Afinal de contas, por que fazer psicoterapia?


Por Leomir C. Hilário.

Este blog tem objetivos profissionais e éticos de seu autor, a saber, dirimir algumas dúvidas recorrentes sobre o processo psicoterapêutico de base psicanalítica, bem como chamar a atenção para a viabilidade e relevância de uma análise pessoal. Afinal de contas, por que se sentar em frente a um desconhecido e lhe falar tudo sem entraves?

Para tentar responder essa questão, convém dizer, em primeiro lugar, que, em psicanálise, a complexidade é uma constante. Não é assim em outras áreas de atuação, naquilo que diz respeito à atividade do profissional diante da singularidade do paciente. A exemplo, peguemos o caso do médico. É-lhe permitido, ética e tecnicamente, dar um diagnóstico minimamente conclusivo e certo; traçar uma terapia específica baseada em medicamentos e autocuidado (dieta, prática de atividades físicas, sono regular etc.). A partir deste material consegue obter um resultado objetivo, verificável, empírico. Imaginemos que uma jovem se apresente ao médico com fortes dores de cabeça. O profissional recomendará algum medicamento, exames específicos. Em certa medida, o médico está ali para resolver o problema localizado, dito, manifesto; não lhe cabendo, portanto, maiores questionamentos pessoais e motivações intrínsecas da doença. Portanto, se alguém pergunta: por que devo ir ao médico lhe dizer todos os meus hábitos? Alguém prontamente responde: porque você está doente e o médico lhe traçará estratégias para você chegar até a cura. 

É evidente que a complexidade médica também existe. É necessária destreza e conhecimento para diferenciar esta daquela enfermidade, para não cometer o erro de traçar uma estratégia de cura que não é a mais apropriada para um caso específico. A ênfase médica está num aporte técnico pré-dado e na habilidade da pessoa do médico em ter intuição e conhecimento suficientes para escolher a estratégia de cura mais apropriada. 

O leitor atento pode estar pensando: ora, mas não é este o mesmo caso do psicoterapeuta? Ele também não opera a partir de uma teoria (como a psicanálise, por exemplo) e de técnicas específicas de intervenção (escuta, interpretação etc.)? Além disso, alguém pode contestar: mesmo que o médico estipule a melhor estratégia de cura, tudo depende do paciente: se ele vai tomar a dose certa do remédio, na hora adequada, se vai fazer a dieta como combinado. Assim, o médico também se encontra num terreno incerto. Não é meu objetivo traçar linhas limítrofes duras e rígidas quanto a essas duas profissões aqui neste texto, tampouco fugir do meu tema inicialmente proposto, a saber, qual é a relevância de alguém entrar em processo de psicoterapia. 

Mesmo assim, uma vez que me arrisquei a colocar em paralelo ambas as profissões, vale demarcar algo: enquanto a intervenção médica se alicerça no desejo do paciente de que o médico saiba exatamente o que ele deve fazer para se curar, a intervenção psicoterapêutica consiste em colocar de maneira compreensível e clara qual é a situação atual do paciente (o que lhe faz sofrer, como funcionam suas idéias em relação a seus sentimentos, como ele se boicota, como e quando ele se ajuda etc.) para que ele decida o que fazer diante do trabalho do psicoterapeuta. Ou seja, enquanto o trabalho médico se propõe a ser um início e fim do tratamento, o do psicoterapeuta é um meio para algo. Enquanto o médico entrega formas prontas para que o paciente execute e chegue até a cura, o psicoterapeuta cria condições de possibilidade para criação de formas singulares para cada caso para uma melhor compreensão de si mesmo, vinculando ao processo psicoterapêutico algo chamado de cuidado de si, do qual falarei em outra oportunidade (num texto a ser chamado de É preciso ter medo de fazer psicoterapia?). 

Voltando à questão central: por que se sentar em frente a um desconhecido e lhe falar tudo sem entraves? Evidentemente, essa questão possui infinitas respostas, para cada caso singular. Logo, vou traçar uma linha bem genérica para tentar deixar claro qual a relevância da psicoterapia. Vou pegar o caso simples de um jovem que, atolado de trabalho de manhã à noite, sente que alguma coisa não vai bem. Financeiramente vai muito bem, porém uma incômoda sensação de que algo lhe falta. Em frente ao psicoterapeuta, diz-lhe que não há nada de errado com ele, trabalha no que quer, conhece pessoas legais. Porém a sensação não some. Cobra do psicoterapeuta que, se tudo está bem, por que volta e meia ele se sente mal? Em busca de uma resposta clara e definitiva que não vem, frustra-se, sente que está perdendo tempo. 

O desfecho de um caso como esse será apresentado no outro texto a ser publicado nesse blog, que citei acima. No entanto, já temos dados suficientes para falar sobre a relevância da psicoterapia. Em nosso mundo atual, é notório que cada vez mais se criam modos forjados de se viver. Ou seja, modos de vida são vendidos. As propagandas de carro são o modelo fiel da idéia de que “se você quer feliz, faça e tenha isso”. As pessoas, cada vez mais, entregam-se inteiramente nessas máquinas de felicidade: vão a um show, dançam freneticamente, bebem, impõem objetivos socialmente aceitáveis para as próprias vidas (como estabilidade financeira, relacionamento sólido etc.). Porém, a vida não pára de retornar. Seja qual for o objetivo alcançado, outro virá. O desejo não cessa de se inscrever na textura de nossa vida.


Há pessoas que conseguem vestir um modo de vida como se fosse uma camisa. Cai bem. Sentem-se felizes. Há outras que não, a camisa fica justa demais, ou folgada. Numa noite de tristeza, ir para um show e tomar todas não parece muito solucionável. Além disso, a correria do dia a dia parece não permitir que se pense em si mesmo. 

A psicoterapia é, antes de tudo, uma interrogação: o que estou fazendo comigo mesmo? Não é uma pergunta endereçada ao psicoterapeuta, mas a si próprio. O processo de psicoterapia é uma montagem que possibilita uma narrativa advinda dessa questão. Frente aos bombardeios mercadológicos (do tipo: tenho exatamente o que você precisa, este belo carro, esta casa financiada de maneira inédita, esta bela roupa etc.), parece que se tornou atividade para poucos parar para refletir sobre si mesmo e a direção que a própria vida vem tomando. 

Para poucos ou para muitos, questionar o que se faz consigo próprio é uma necessidade humana. É cuidar de si.